O brilho tóxico do glitter: como partículas coloridas estão interferindo na vida marinha
Ele está presente em maquiagens, roupas, artesanatos e festas. Pequeno, chamativo e aparentemente inofensivo, o glitter se tornou símbolo de diversão — mas novos estudos revelam que ele esconde um papel preocupante no ecossistema marinho.
Pesquisadores da Universidade Trinity College Dublin descobriram que o glitter feito de polietileno tereftalato (PET) — um tipo comum de microplástico — não apenas polui os oceanos, mas altera sua química ao interagir com minerais fundamentais para a vida marinha. A pesquisa foi publicada na revista Environmental Sciences Europe.
No laboratório, os cientistas simularam as condições da água do mar e introduziram partículas de glitter para observar seus efeitos. Em poucos minutos, as partículas começaram a atuar como plataformas para a formação de cristais de carbonato de cálcio, como calcita e aragonita — minerais usados por diversos organismos, como corais, moluscos e ouriços-do-mar, para construir suas conchas e esqueletos.
O que inicialmente parecia uma simples interação revelou um problema maior: esses cristais não são naturais nesse contexto e, ao se formarem sobre o glitter, aceleram sua fragmentação, gerando nanoplásticos ainda menores — invisíveis a olho nu, mas altamente persistentes e de difícil remoção do ambiente marinho.
Além disso, ao interferirem na formação natural das conchas, essas partículas comprometem o desenvolvimento de espécies marinhas que dependem de estruturas duras para proteção e sobrevivência. Isso pode desencadear efeitos em cadeia nos ecossistemas oceânicos e, indiretamente, também na alimentação humana.
“É como mudar a receita durante o preparo de um bolo: o resultado final não será o mesmo”, explicou o professor Juan Diego Rodriguez-Blanco, um dos autores do estudo.
Mais do que um poluente visual, o glitter altera o equilíbrio químico dos oceanos e pode impactar processos naturais essenciais, como a formação de carbonatos, que também desempenham papel no ciclo global do carbono — elemento chave na regulação do clima da Terra.
Apesar de alguns produtos prometerem versões “biodegradáveis”, os pesquisadores alertam que muitas dessas alternativas continuam sendo nocivas, com comportamento semelhante aos plásticos convencionais.